CASA GAMA ISSA

A Casa Gama Issa sintetiza um período da obra de Kogan que privilegiava (1) superfícies brancas, (2) composição formal a partir da intersecção de volumes e (3) espaços internos com variações no pé direito, criando sensações arquitetônicas diversas para cada espaço.

Essas experiências se iniciam aproximadamente 10 anos antes na Casa Goldfarb (1986) chegam até a conclusão da Gama Issa. Articulada por uma sala com 5 m de pé direito, o espaço social se abre para o jardim por meio de um pano de vidro deslizante que cobre um vão de 17m. A estante de livros é o revestimento para a parede longitudinal da sala e configura também um anteparo visual para duas escadas simétricas. Concomitante a esse projeto, o escritório de Kogan é reorganizado com a entrada no time de cinco arquitetos: Bruno Gomes, Renata Furlanetto, Samanta Cafardo e Suzana Glogowski – e passa a se chamar studio mk27. Dessa forma, Gama Issa é uma espécie de marco inicial do escritório como é estruturado nas décadas seguintes.

Essa foi a primeira obra a projetar internacionalmente a obra de Kogan ao ser nomeada ao prêmio World Architecture Award (WAA), Berlin em 2002. O projeto ganhou um retrofit em 2015 quando acabamentos, decoração e caixilhos foram mudados, além de receber a adição de um novo volume.

A decoração da versão de 2000 usou móveis de designers modernos como Eero Saarinen e resultou em uma atmosfera futurista-minimalista que remete à nostalgia da corrida espacial dos anos 60 e 70. Em 2015, móveis de designers contemporâneos como Piero Lissoni, Patricia Urquiola and Jader Almeida se juntaram ao espaço.
Gabriel Kogan

São Paulo, 12 de março de 1999

Dez horas da noite. Muito calor. Aproveito este raro momento de calma e solidão para desenhar a nova casa. Olho pela janela e vejo uma BMW X5 estacionando em frente ao escritório. Dela saem um rapaz de aproximadamente 27 anos e uma estonteante loira que segura medrosamente a sua bolsa Prada.

Um quase mendigo, quase preto aproxima-se e pede para cuidar do carro em troca de 5 reais. Eles entram no restaurante japonês. Do rádio, que desligarei dentro de dez segundos fala-se do último seqüestro e de uma rebelião de presos. Leio as minhas anotações da primeira reunião com os clientes, um casal de publicitários. Conversamos sobre uma enorme biblioteca na sala com pé-direito duplo, enormes janelas que se abrem completamente para o jardim, uma piscina de 3 X 30m, uma cozinha com uma bancada central laranja, duas escadas de mármore simétricas iluminadas por um enorme rasgo zenital, um estúdio de trabalho, detalhamento preciso, espaços com proporções elegantes e inusitadas sempre se relacionando com o exterior de uma forma diferente, texturas brancas, a poltrona “Ball” de Eero Aarnio, os anos 60, minimalismo, música eletrônica, Stockhausen, Cage, o último número da revista Visionaire, receita de um spaghetti al mare e finalmente, “Meu Tio” de Jacques Tati.

Penso num enorme e único volume empacotando tudo: uma caixa branca. Em São Paulo, não precisamos pensar em integração arquitetônica, tudo é um caos, o mais absoluto caos. Nesta cidade, a mais feia do mundo, que transborda energia, vibrante como nenhuma outra, adorada e detestada, tudo que for projetado estará plenamente integrado á cidade. Ah, sim, não posso me esquecer de um enorme muro protegendo a casa, revestido de madeira natural (talvez da última árvore da Amazônia), e que certamente será totalmente pichado, dando um toque final na perfeita harmonia com o entorno. De um humilde arquiteto do terceiro mundo, Marcio Kogan

CASA GAMA ISSA

local > são paulo . sp . brasil
projeto > janeiro . 2012 (v2) . fevereiro .1999 (v1)
conclusão > maio . 2016 (v2) . fevereiro . 2001 (v1)
terreno > 2.100 m2 (v2) . 1.700 m2 (v1)
área original > 827 m2 (v1)
área construída > 387 m2 (v2)
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autor > marcio kogan
co-autor > lair reis
interiores > fase 1: diana radomysler / fase 2: claudia issa
equipe de arquitetura > anna helena villela . beatriz meyer . luciana antunes . oswaldo pessano
equipe de comunicação > carlos costa . laura guedes . mariana simas
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estrutura > eduardo duprat
construtora > fase 1: rogério perez / fase 2: sc consult
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fotógrafo > fernando guerra

A Casa Gama Issa sintetiza um período da obra de Kogan que privilegiava (1) superfícies brancas, (2) composição formal a partir da intersecção de volumes e (3) espaços internos com variações no pé direito, criando sensações arquitetônicas diversas para cada espaço.

Essas experiências se iniciam aproximadamente 10 anos antes na Casa Goldfarb (1986) chegam até a conclusão da Gama Issa. Articulada por uma sala com 5 m de pé direito, o espaço social se abre para o jardim por meio de um pano de vidro deslizante que cobre um vão de 17m. A estante de livros é o revestimento para a parede longitudinal da sala e configura também um anteparo visual para duas escadas simétricas. Concomitante a esse projeto, o escritório de Kogan é reorganizado com a entrada no time de cinco arquitetos: Bruno Gomes, Renata Furlanetto, Samanta Cafardo e Suzana Glogowski – e passa a se chamar studio mk27. Dessa forma, Gama Issa é uma espécie de marco inicial do escritório como é estruturado nas décadas seguintes.

Essa foi a primeira obra a projetar internacionalmente a obra de Kogan ao ser nomeada ao prêmio World Architecture Award (WAA), Berlin em 2002. O projeto ganhou um retrofit em 2015 quando acabamentos, decoração e caixilhos foram mudados, além de receber a adição de um novo volume.

A decoração da versão de 2000 usou móveis de designers modernos como Eero Saarinen e resultou em uma atmosfera futurista-minimalista que remete à nostalgia da corrida espacial dos anos 60 e 70. Em 2015, móveis de designers contemporâneos como Piero Lissoni, Patricia Urquiola and Jader Almeida se juntaram ao espaço.
Gabriel Kogan

São Paulo, 12 de março de 1999

Dez horas da noite. Muito calor. Aproveito este raro momento de calma e solidão para desenhar a nova casa. Olho pela janela e vejo uma BMW X5 estacionando em frente ao escritório. Dela saem um rapaz de aproximadamente 27 anos e uma estonteante loira que segura medrosamente a sua bolsa Prada.

Um quase mendigo, quase preto aproxima-se e pede para cuidar do carro em troca de 5 reais. Eles entram no restaurante japonês. Do rádio, que desligarei dentro de dez segundos fala-se do último seqüestro e de uma rebelião de presos. Leio as minhas anotações da primeira reunião com os clientes, um casal de publicitários. Conversamos sobre uma enorme biblioteca na sala com pé-direito duplo, enormes janelas que se abrem completamente para o jardim, uma piscina de 3 X 30m, uma cozinha com uma bancada central laranja, duas escadas de mármore simétricas iluminadas por um enorme rasgo zenital, um estúdio de trabalho, detalhamento preciso, espaços com proporções elegantes e inusitadas sempre se relacionando com o exterior de uma forma diferente, texturas brancas, a poltrona “Ball” de Eero Aarnio, os anos 60, minimalismo, música eletrônica, Stockhausen, Cage, o último número da revista Visionaire, receita de um spaghetti al mare e finalmente, “Meu Tio” de Jacques Tati.

Penso num enorme e único volume empacotando tudo: uma caixa branca. Em São Paulo, não precisamos pensar em integração arquitetônica, tudo é um caos, o mais absoluto caos. Nesta cidade, a mais feia do mundo, que transborda energia, vibrante como nenhuma outra, adorada e detestada, tudo que for projetado estará plenamente integrado á cidade. Ah, sim, não posso me esquecer de um enorme muro protegendo a casa, revestido de madeira natural (talvez da última árvore da Amazônia), e que certamente será totalmente pichado, dando um toque final na perfeita harmonia com o entorno. De um humilde arquiteto do terceiro mundo, Marcio Kogan