IGREJA PUCCAMP

22 degraus

Está muito frio, um pouco de neblina mancha a velha igreja. Há trinta anos que eu não voltava para este lugar. Somente as pedras rústicas que revestem o bloco de entrada resistem impassíveis ao tempo. As paredes texturizadas brancas já pintadas mais de vinte vezes demonstram um óbvio cansaço.

Sentadas na escadaria, três meninas conversam desanimadamente.

Abro uma das imensas portas de madeira, sinto o cheiro de incenso, emocionado caminho ao longo do estreito corredor com sua enorme altura, iluminado pelos parcos raios de sol desta manhã. Já não me recordo muito bem, mas acho que os pequenos furos de iluminação natural têm inclinações variadas criando diferentes cenas no transcorrer do dia. Do meu lado esquerdo algumas velas acesas ajudam a iluminar o jovem padre batizando uma criança. Olho para a enorme pia e me lembro do dia em que conversamos sobre este hall no escritório, simplesmente a água e a luz. Uma pequena lágrima cai no chão de cimento claro.

Chego na nave. Duas freiras de negro rezam ajoelhadas, e uma delas num movimento felliniano se volta para mim , me emociono ainda mais . Na última fileira um senhor sentado no sóbrio e gasto banco de madeira repete continuamente a “ave maria”.

Algumas manchas denunciam um vazamento no teto. Lembro-me que discutimos se a parede atrás do altar deveria ser de vidro jateado ou esta de pedra rústica, banhada por uma suave luz.

Na pequena capela uma enorme quantidade de imagens displicentemente colocadas sobre o aparador, olham com compaixão para o vazio.

Preciso ir embora, mas antes quero subir até o pátio externo. Com grande dificuldade venço os 22 degraus. Piso no chão de cascalho e me sento no longo banco maciço. Este jardim monástico ainda me agrada.

Olho para o já enferrujado sino cromado em forma de cubo que talvez nunca funcionou. No outro banco um belo casal se beija demoradamente. Humildemente meus olhos se fixam na cruz por alguns minutos e toda uma vida passa pela minha cabeça, suspiro e respiro profundamente… Como é bom viver !

Desço pela escada me apoiando na parede, e o corrimão que eu não quis usar no projeto me faz muita falta.

Eu sabia.

27 de Julho, 2033

Marcio Kogan

IGREJA PUCCAMP

PROJETO REALIZADO PARA CONCURSO
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local> campinas . sp . brasil
projeto > junho . 2001
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arquitetura > studio mk27
arquiteto > marcio kogan
co – autor > bruno gomes . diana radomysler
equipe de projeto > oswaldo pessano
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equipe do studio > cassia cavani . gisele ziberman

22 degraus

Está muito frio, um pouco de neblina mancha a velha igreja. Há trinta anos que eu não voltava para este lugar. Somente as pedras rústicas que revestem o bloco de entrada resistem impassíveis ao tempo. As paredes texturizadas brancas já pintadas mais de vinte vezes demonstram um óbvio cansaço.

Sentadas na escadaria, três meninas conversam desanimadamente.

Abro uma das imensas portas de madeira, sinto o cheiro de incenso, emocionado caminho ao longo do estreito corredor com sua enorme altura, iluminado pelos parcos raios de sol desta manhã. Já não me recordo muito bem, mas acho que os pequenos furos de iluminação natural têm inclinações variadas criando diferentes cenas no transcorrer do dia. Do meu lado esquerdo algumas velas acesas ajudam a iluminar o jovem padre batizando uma criança. Olho para a enorme pia e me lembro do dia em que conversamos sobre este hall no escritório, simplesmente a água e a luz. Uma pequena lágrima cai no chão de cimento claro.

Chego na nave. Duas freiras de negro rezam ajoelhadas, e uma delas num movimento felliniano se volta para mim , me emociono ainda mais . Na última fileira um senhor sentado no sóbrio e gasto banco de madeira repete continuamente a “ave maria”.

Algumas manchas denunciam um vazamento no teto. Lembro-me que discutimos se a parede atrás do altar deveria ser de vidro jateado ou esta de pedra rústica, banhada por uma suave luz.

Na pequena capela uma enorme quantidade de imagens displicentemente colocadas sobre o aparador, olham com compaixão para o vazio.

Preciso ir embora, mas antes quero subir até o pátio externo. Com grande dificuldade venço os 22 degraus. Piso no chão de cascalho e me sento no longo banco maciço. Este jardim monástico ainda me agrada.

Olho para o já enferrujado sino cromado em forma de cubo que talvez nunca funcionou. No outro banco um belo casal se beija demoradamente. Humildemente meus olhos se fixam na cruz por alguns minutos e toda uma vida passa pela minha cabeça, suspiro e respiro profundamente… Como é bom viver !

Desço pela escada me apoiando na parede, e o corrimão que eu não quis usar no projeto me faz muita falta.

Eu sabia.

27 de Julho, 2033

Marcio Kogan